segunda-feira, 16 de abril de 2012

E vovó perdeu a boina...

Essa história eu só ouvi falar. É o tipo de história que passa de geração em geração e comigo não é diferente. Hoje quando minha mãe viu o blog e me contou a história da boina de vovó minha imaginação me transportou diretamente ao acontecimento, pude até sentir a fuligem da locomotiva e escutar seu som. 

Eu não conheci minha bisavó pois ela faleceu dois dias após o meu nascimento. As únicas memórias que possuo foram construídas em minha imaginação fecundada por lembranças dos outros. E essa história não é diferente, mas vamos deixar de lero-lero e começar a desembuchar. 

Faz algumas década que Maria da Silva foi se despedir da sua prima na Estação de Porto das Caixas. O trem partia com destino a Nova Friburgo e a prima de Maria da Silva já se encontrava acomodada dentro do carro de passageiro. Na plataforma Maria da Silva acenava com um misto de tristeza e alegria pois a tristeza é que sua prima partiria e a alegria em saber que guardaria bons momentos em sua memória. Esse é um sentimento frequente nas plataformas das estações, lugar onde a Maria-Fumaça assumia o papel de protagonista em qualquer história e nos acontecimentos diários em que todos nós, seres humanos, somos meros personagens coadjuvantes.

Maria da Silva trajava um vestido de chita, um xale em volta dos ombros e pescoço, botinas, um delicado par de luvas e uma graciosa boina de lã na cabeça. Era uma típica senhorita dessas encontradas em qualquer cidade do interior e qualquer estação ferroviária teria aos montes em suas plataformas. A cena descrita poderia ser parte de um roteiro cinematográfico ou teledramaturgia mas foi concebida em minha imaginação a qual construiu e restaurou em mínimos detalhes. Mesmo não tendo presenciados nenhuma Maria-Fumaça com destino a Friburgo ou visto a Estação de Porto das Caixas em pé. Mas foi criada no bojo do fascínio que possuo em ferrovias.

Assim que o condutor dá o sinal de partida e o maquinista coloca a locomotiva em marcha, logo após as deliciosas patinadas que só uma Maria-Fumaça sabe fazer, é o momento dos últimos acenos para os entes queridos que partem. Nesse momento em que Maria da Silva cumpre o protocolo é que sua boina, que parece estar movida pelo desejo de embarcar  no trem, parte da sua cabeça acompanhando a Maria-Fumaça que parte rumo ao seu destino.

Essa pequena história narrada, que não possui nada de especial, é um dos muitos momentos que compõe o romantismo do transporte sobre trilhos. Quando ouvi essa história banal me lembrei de que o mesmo aconteceu comigo, porém com elementos parecidos. Perdi o meu trabalho de Estatística na estação do metrô levado pelo vento produzido pelo trem. Talvez tenha sido o mesmo vento que levou a boina da vovó e que me reconheceu como um descendente dela após 74 anos.

trem praça getulio

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